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Em caminhada, Sindicato refaz os passos da greve de 68

Por Auris Sousa | 29 mar 2016

Sinvaldo Aparecidos dos Santos, de 51 anos, não sabia, mas o lugar que ele escolheu para aguardar o início da “Corrida por Manoel” nesta terça-feira, 29, transpira história de luta por democracia, justiça e direitos trabalhista. Isso porque há 48 anos bem naquele local, onde hoje funciona a Telha Norte da Avenida dos Autonomistas, ficava a Lonaflex, a segunda fábrica a aderir à greve de 68 em Osasco.

O lugar para dar início ao projeto do jornalista e maratonista Rodolfo Lucena em Osasco não foi escolhido por acaso. Apesar de nada ali mais se assemelhar com o que um dia foi uma metalúrgica, o espaço é símbolo de umas das batalhas pela democracia, e ainda traz lembranças significativas para centenas de brasileiros. Entre eles,  Manoel Dias do Nascimento, o Neto, e  Antonio Roberto Espinosa, ambos ajudaram a organizar a luta contra a ditadura que reprimiu, perseguiu, torturou e matou centenas de pessoas.

Corrida (11)

Num trajeto, que teve aproximadamente 5 quilômetros, Neto e Espinosa se revezaram para contar suas lembranças sobre boa parte daquilo que viveram nos anos de chumbo. A caminhada passou pelos locais onde funcionavam a Brown Broveri, Barreto Keller, Fósforos Granada, Braseixos e a Cobrasma. Empresas que foram palco da organização dos trabalhadores na grande Greve de 68, que tornou Osasco exemplo de resistência à ditadura para todo o país.

Neto, que é diretor fundador do nosso Sindicato e, em 68, era funcionário da Lonaflex, conta que a empresa tinha uma comissão de fábrica que, inclusive, conquistou todas as cláusulas até então reivindicadas. Mas , mesmo assim, os metalúrgicos aderiram à paralisação. “A greve era em solidariedade aos demais companheiros”, explicou.

A mobilização era tamanha que provocava a ira dos militares e das empresas, ao ponto de que alguns trabalhadores, sem qualquer envolvimento com crime, foram presos e torturados. Foi numa dessas iras, sem explicação, que Manoel Fiel Filho, homenageado no projeto de Rodolfo, foi torturado e morto em 1976. “Manoel Fiel Filho lutava pelos direitos dos trabalhadores e foi preso e morto por isso, não só Manoel, mas muitos outros”, ressaltou Lucena.

Pela democracia – No microfone, ao longo do percurso, o presidente do Sindicato, Jorge Nazareno, também explicou para a população o motivo da caminhada e lembrou os nomes de alguns trabalhadores que lutaram pela democracia: Manoel Filho, João Domingues, Barreto, José Ibrahin, José Groff, Pedro Tintino, Carlos Lamarca. Nazareno, também destacou a importância de defendermos a democracia.

“Manoel Fiel Filho, assim como muitos outros, emprestaram seu nome e sua vida pela luta dos trabalhadores e por isso essa homenagem num momento em que o país vê ameaçado as suas garantias, ameaçadas as suas liberdades democráticas”, destacou.

Um casal de jovens desviou seu caminho para uma consulta médica para acompanhar a caminhada, gravando para publicar nas redes sociais, num momento em que é cada vez mais preciso reforçar as posições contrárias ao golpe. “É importante porque às vezes as pessoas vêem o que está acontecendo e não entendem e ficam só repetindo o que passa na mídia manipuladora”, afirmou Bruno Nunes.

O fechamento da caminhada foi na Meritor, onde funcionava a Braseixos. Lá Neto e Espinosa ressaltaram a importância de fortalecer a democracia. “Hoje lutar contra o estado de excessão, contra o impeachment, é lutar pela dignidade dos trabalhadores. Por iso tomo a liberdade de convidar todos para a manifestação, que acontece quinta-feira, na Praça da Sé, às 17h, pela legalidade do nosso país”, enfatizou Espinoza.

No fim, Sinvaldo, que foi o primeiro a chegar no emblemático número 896 da Avenida dos Autonomistas nesta manhã para a “Corrida por Manoel”, uniu a sua paixão por corrida com um enorme aprendizado: “É muito bom conhecer a história de pessoas, que assim como Manoel Fiel Filho, tiveram e têm um papel importância para a nossa história”, avaliou.

Assista ao vídeo e conheça a história de Manoel Fiel Filho: