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Economista analisa crescimento do trabalho informal no Brasil

Por Cristiane Alves | 03 abr 2018

Em 2017, foram criadas 1,8 milhão de vagas; porém todas elas eram informais. Enquanto isso, 685 mil postos com carteira assinada foram perdidos. Sindmetal entrevistou a economista e pesquisadora da Unicamp, Marilane Teixeira, que analisa a situação de retrocesso no mercado de trabalho brasileiro.

Sindmetal – Ao invés de gerar emprego formal, os dados mostram que o emprego informal vem ganhando força. Em 2017, foram criadas 1,8 milhão de vagas, todas no setor informal. Com carteira, 685 mil vagas foram perdidas. Esses trabalhadores têm metade da renda dos formais, o que significa menos consumo e crescimento do PIB. A estimativa de crescimento do PIB em 3% já é vista como incerta, conforme matéria do O Globo de hoje. Qual é a consequência dessa situação, para os trabalhadores e para o país?

Marilane – A Pnad 2017 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE) mostra que cresceu emprego o informal, principalmente, entre mulheres, e especialmente, entre as mulheres negras. Tem peso muito grande do trabalho por conta própria, trabalho sem carteira assinada e do emprego doméstico sem carteira assinada, este está voltando. É um emprego muito frágil. Na informalidade, você não tem segurança nenhuma, nenhuma confiança sobre o futuro, então, é obvio que não vai investir em gastos maiores, em consumo. Também é um emprego com salários baixos. Cresceu em 2017 o número de pessoas que recebem um salário mínimo, principalmente entre as mulheres negras. Em 2014, 46% das negras recebiam 1 salário mínimo. Em 2017, 49% delas recebiam. E mais, cresceu a parcela que ganha meio salário mínimo.

Sindmetal – O ministério do Trabalho também divulgou que na modalidade trabalho intermitente (por dia ou por hora), foram realizadas 2.660 admissões e 569 desligamentos, gerando um saldo positivo de 2.091 empregos em fevereiro. Como todo esse quadro poderá se agravar à medida que a reforma trabalhista for aplicada nas categorias em geral, especialmente, com a terceirização, trabalho temporário e intermitente?

Marilane – Os empresários estão tendo cautela em adotar a reforma trabalhista. A gente sempre fez o balanço que a reforma seria adotada segundo a lógica empresarial. Comércio e Serviços é onde tende a crescer o trabalho intermitente e na indústria, a terceirização.

Sindmetal – Ao mesmo tempo em que temos queda da renda do trabalho, temos dados que mostram o aumento de 3,5% dos gastos dos brasileiros no exterior, saltando de US$ 1,405 bilhão para US$ 1,362 bilhão. Qual é o retrato de Brasil que tiramos disso?

Marilane – Se a gente analisar quem perdeu postos de trabalho nos últimos três anos foram os baixos salários e houve preservação para aqueles que tem remuneração mais alta e tem situação de emprego mais estável. É um processo de reconcentração de renda que é muito próprio desse contexto de crise econômica. A atividade, quando retorna vai para setores exportadores, que não têm impacto no consumo.

Sindmetal – Que tipo de política econômica é essa que gera precarização e não tem crescimento?

Marilane – Isso tudo significa que não tem retomada da atividade econômica de forma consistente. As pessoas estão se virando. Mas que tipo de crescimento que gera esse perfil de emprego? É sem consistência por que não tem investimento, teve redução nos gastos sociais, o que a gente pode contar é só com investimento externo.

Sindmetal – O que podemos esperar para 2018, um ano eleitoral?

Marilane – Nós ainda vamos viver um momento muito difícil, complexo, considerando que estamos num ano eleitoral. Por outro lado, os fundamentos econômicos que são orientados por esse governo não indicam nenhuma perspectiva de retomada do crescimento sustentável, a partir do investimento público, de uma política de longo prazo e temos um desemprego de longo prazo, em que as pessoas se aventuram de diferentes formas para sobreviver.

Temos que encarar o processo eleitoral como uma forma de mudar e derrotar essa política de austeridade fiscal, com teto de gastos. A gente precisa retomar investimentos. Quais foram os setores mais afetados pela crise? Indústria, agricultura e construção civil. Construção civil depende de investimento público. Na Agricultura, dificilmente vai retomar os empregos perdidos, porque o que tem crescido é a agroindústria, focada na monocultura e de emprego muito concentrado. Na Indústria, boa parte dos empregos perdidos nos últimos 3 anos não serão retomados. Se não alterar esse projeto, temos a perspectiva de termos uma sociedade ainda mais cindida em duas grandes classes. O movimento sindical tem papel fundamental na resistência a reforma trabalhista. A gente tem condições de barrar na luta muitos aspectos da reforma.