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Volkswagen negocia reparação por apoio a ditadura

Por Cristiane Alves | 03 nov 2015

Reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no domingo, 1º, informa que a Volkswagen conversa com o Ministério Público Federal sobre a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta em relação ao fato de a montadora alemã ter contribuído para que a ditadura praticasse torturas contra vários de seus trabalhadores.

As negociações com o MPF foram provocadas por uma ação apresentada pelas centrais sindicatos, sindicatos – incluindo o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região – associações de ex-preso políticos que, a partir de análise de documentos encontrados nos arquivos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) estabelecem o vínculo entre a Volkswagen e a repressão, um vínculo que não só era político e econômico, mas também se fazia por meio da indicação de trabalhadores vistos pela empresa como “subversivos”. Leia aqui o jornal sobre a representação.

Abaixo, a íntegra da reportagem publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo:

Volkswagen negocia reparação judicial por apoio à repressão durante ditadura

MARCELO GODOY E CLEIDE SILVA – O ESTADO DE S. PAULO

A Volkswagen é a primeira empresa a negociar uma reparação judicialmente por ter financiado ou participado ativamente da repressão à oposição política e ao movimento operário durante a ditadura militar no Brasil. Dirigente da matriz do grupo que esteve no Brasil neste mês a pedido do Ministério Público Federal (MPF) afirmou ao Estado que a companhia busca um acordo com o órgão, que baseia sua ação nas investigações feitas pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Segundo Manfred Grieger, diretor do departamento de Comunicação Histórica do Grupo Volkswagen, sua intenção ao participar do encontro no MPF, ocorrido em São Paulo no dia 14, era de entrar em contato com vítimas da ditadura militar brasileira e buscar mais informações sobre o relacionamento entre a Volkswagen do Brasil e as instituições brasileiras daquela época.

“Foi o início de uma discussão sobre como chegar a um acordo a respeito dessa questão”, afirmou Grieger. “Uma ideia é talvez desenvolver um conceito de memorial em conjunto com outras instituições brasileiras, como sindicatos, e colocá-lo em prática. Queremos continuar as discussões para explorar os prós e contras a respeito dos próximos passos”, disse, por e-mail, o diretor.

Desde 2014 Grieger recolhe informações e documentos sobre as acusações de apoio dado pela montadora ao regime. Quem se reuniu com ele foi o procurador regional dos Direitos do Cidadão, do MPF, em São Paulo, Pedro Antônio de Oliveira Machado.

“Queremos fazer um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). O objetivo é que o dinheiro da reparação seja depositado no Fundo de Interesses Difusos ou usado para a construção de um memorial ou museu sobre o período”, confirmou Machado.

Objetivo. Nas mãos de Machado e de seus colegas do MPF estão os documentos reunidos por dez centrais sindicais, associações, pesquisadores, por ex-integrantes da CNV e ex-operários da Volkswagen perseguidos pelo regime militar.

Os papéis foram entregues aos procuradores em setembro. Por meio de uma representação, eles pediam a abertura de um inquérito civil público a fim de que se apurasse “o quanto objetivamente contribuiu a Volkswagen do Brasil para a consecução das violações de direitos humanos noticiadas na representação”.

Os sindicalistas queriam ainda que o MPF apurasse o grau de participação do corpo dirigente da empresa em cada violação, em especial “aos crimes de tortura perpetrados no interior de suas plantas industriais” e a “colaboração com os órgãos de segurança estatal, unidades militares e organizações sindicais patronais”. Por fim, o grupo pediu que fossem investigados “benefícios obtidos pela empresa em razão da cumplicidade com o regime”.

Entre os documentos apresentados pelos sindicalistas estão os relatos de que a montadora doou equipamentos – como modelos Fusca – para o Destacamento de Operações de Informações (DOI) do 2.º Exército. Há documentos com o carimbo do Departamento de Segurança Industrial da empresa que foram enviados ao Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops-SP) com detalhes sobre a atuação de operários, descritos como subversivos, em manifestações e greves. 

Torturas. Há ainda cópias de cerca de 200 “boletins de ocorrência” feitos pela segurança da empresa e enviados ao Dops. Neles há relatos de operários surpreendidos pela Polícia Militar fazendo piquetes que, em vez de serem levados à delegacia, eram conduzidos pela PM para a fábrica da empresa em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para serem identificados e interrogados. Há ainda relatos de espancamento e torturas de operários ligados a partidos comunistas ocorridos dentro da empresa.

Além de Machado e de Grieger, sindicalistas, pesquisadores e algumas das vítimas que reuniram esses papéis também estiveram na reunião na sede do MPF. Da Alemanha também veio para o encontro Joerg Kother, representante da Comissão Internacional dos Trabalhadores da Volkswagen.

“Nós queremos que seja feita uma reparação. Não procuramos acordos individuais, mas uma solução que seja coletiva”, disse Sebastião Lopes de Oliveira Neto, que coordenou o grupo de trabalho sobre a repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical, da CNV. De acordo com ele, que dirige o instituto Intercâmbio, Informações Estudos e Pesquisas (IIEP), “havia uma relação muito íntima entre a segurança da montadora e os órgãos de repressão do regime militar”.

Socos, tapas e pontapés na empresa: era só o começo

CLEIDE SILVA E MARCELO GODOY – O ESTADO DE S. PAULO

Aos 28 anos, Lúcio Bellentani trabalhava na Volkswagen de São Bernardo do Campo (SP) como ferramenteiro, profissão muito requisitada na época. Entrou para o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e tentava organizar uma base do partido em grandes empresas da região. Foi preso em julho de 1972, na ala de prensas em que trabalhava, às 23h30, numa ação acompanhada por seguranças da companhia. Outros 12 operários também foram detidos.

Bellentani primeiro foi levado a uma sala do setor de Recursos Humanos, onde conta ter levado socos, chutes e pontapés. Depois foi transferido para o Dops, e passou por frequentes sessões de tortura: palmatórias nas mãos, pés e cabeça, pau de arara, choque elétrico e chegou a ser arrastado em um veículo amarrado pelas mãos.

Teve dentes arrancados com alicate e, até cinco anos atrás “era banguela, pois não tinha coragem de ir ao dentista”, conta Bellentani, hoje com 71 anos. “Só nos anos mais recentes criei coragem e fui fazer tratamento”, diz ele, que também tem pesadelos e afirma não ficar em quartos escuros.

Ele passou, ao todo, um ano e oito meses na prisão. Após ser solto, mudou-se para o interior de São Paulo, pois não conseguiu emprego no ABC, onde morava a família. “As empresas trocavam lista de pessoas que não deveriam ser contratadas, mas como não havia internet, em cidades pequenas era mais fácil conseguir uma vaga”. Além disso, os atestados de antecedentes políticos solicitados na época levavam em média seis meses para serem enviados.

O ex-metalúrgico vive atualmente em Jacareí (SP) e há três meses fundou o Sindicato dos Aposentados da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB). Ele esteve na reunião no Ministério Público Federal, onde encontrou-se com Manfred Grieger, diretor da Volkswagen.

“Não reivindicamos nenhuma questão de penalidade ou de criminalização. Queremos que a empresa reconheça que fez besteira, e se responsabilize por seus desmandos”, diz Bellentani. “Que a verdade venha à tona, pois várias empresas também foram responsáveis pelo que ocorreu em nosso País.”