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53 anos da Greve de Osasco: luta e experiência

Por Felipe | 16 jul 2021

Operários da Cobrasma são rendidos e presos após militares invadirem a fábrica. Arquivo Estadão.

O apito da Cobrasma entrou para a história naquela manhã fria de 16 de julho de 1968, quando tocou fora de horário e pegou a direção da empresa de surpresa. Os trabalhadores, no entanto, já sabiam o que significava: greve e luta.

A situação de Osasco em 1968 era um reflexo bem claro dos sofrimentos do Brasil durante a ditadura. A cidade havia se emancipado poucos anos antes, em 1962; e a fundação do nosso sindicato se deu logo depois, em 1963. Mas a chegada forçada da Ditadura Militar interrompeu ambos os processos: tanto a prefeitura quanto o sindicato sofreram intervenções.  

Foi nesse cenário de instabilidade política – um verdadeiro barril de pólvora – que os metalúrgicos de Osasco elegeram a Chapa Verde em 1967, com uma proposta radical de mobilização pela base, luta contra o arrocho salarial e defesa da democracia. Essas ideias tinham raízes profundas na categoria, que possuía uma Comissão de Fábrica em pleno funcionamento na Cobrasma desde 1963, algo que era pioneiro no país e estimulava a participação direta dos trabalhadores na luta por seus direitos.

As chamas do descontentamento popular com a brutalidade dos militares e com o arrocho salarial, que na prática diminuía os salários, eventualmente explodiram na cidade naquela manhã de julho, quando soou o tal apito. Os trabalhadores da Cobrasma cruzaram os braços, ocuparam a fábrica e firmaram os pés em defesa de sua posição: maiores salários e melhores condições de trabalho. Sabiam dos riscos de fazer uma greve em plena ditadura, mas também sabiam que existem momentos onde é necessário lutar.

Mas a ditadura militar não deixaria essa afronta passar. Em abril, poucas semanas antes, os metalúrgicos de Contagem-MG também cruzaram os braços e pegaram o governo de surpresa. E os militares, que tentavam assegurar seu domínio ditatorial sobre o país, não poderiam deixar outra greve estourar.

A reação foi brutal, com a invasão da fábrica por forças militares e prisão de centenas de trabalhadores. Operários, pais de família, algemados e arremessados em camburões sob a ameaça de fuzis apenas por lutarem por seus direitos.

Os operários da Cobrasma, porém, não estavam sozinhos: outras fábricas pararam sua produção em solidariedade, incluindo Braseixos, Brown Boveri, Lonaflex e Barreto Keller. Até mesmo a Fósforos Granada, que nem mesmo era metalúrgica, cruzou os braços e seus trabalhadores marcharam em conjunto rumo ao nosso sindicato.

O alastramento da greve instigou o ímpeto violento da ditadura, que nos dias seguintes estenderia sua repressão para o próprio sindicato, que foi invadido e a diretoria cassada. Os militantes foram perseguidos de maneira brutal, e boa parte foi presa e torturada. Dentre aqueles que sobreviveram, muitos entraram para listas negras das empresas e foram obrigados a mudar de cidade, porque não conseguiam mais arranjar emprego.

Embora a repressão tenha apagado a chama do movimento grevista, as centelhas da luta se espalharam pelo tempo e pelo espaço. O exemplo de Osasco chegou à outras cidades de São Paulo e de todo Brasil. Na capital, bem como em Guarulhos e no ABC, a experiência das comissões de fábrica foi central para a reorganização dos operários durante os anos duros do regime militar e, por consequência, foi diretamente responsável pelo ressurgimento das lutas em 1978.

A história da Greve de 1968 não é nossa história. É parte central da identidade dos metalúrgicos de Osasco e Região, que há mais de 50 anos os mesmos valores: a democracia operária das comissões de fábrica, a luta por melhores salários e condições de trabalho, e a resistência contra governos autoritários que querem pisar nos trabalhadores.

 

Jornal Visão Trabalhista EDIÇÃO #13

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