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À CPI da Covid, Teich confirma que saiu por pressão de Bolsonaro pela cloroquina

Por Auris Sousa | 05 maio 2021

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich disse nesta quarta-feira, 5, em depoimento à CPI da Covid, que o principal motivo que o levou a pedir demissão foi a pressão do presidente Jair Bolsonaro pela “ampliação do uso da cloroquina” no tratamento para pacientes com covid-19. Segundo Teich, de acordo com sua convicção pessoal e os estudos científicos disponíveis à época, “não existia evidência de eficácia para liberar” o uso do medicamento. Ao ser questionado pelos senadores Renan Calheiro (MDB-AL), relator da CPI, e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão, Teich afirmou que as declarações e atitudes de Bolsonaro para estender o uso da cloroquina revelavam que ele, como ministro, não teria “autonomia” para ditar os rumos das políticas necessárias para o enfrentamento da pandemia.

“O pedido específico de demissão foi pelo desejo de ampliação do uso de cloroquina. Esse era o problema pontual. Mas isso refletia uma falta de autonomia e uma falta de liderança”, disse o ex-ministro. “Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação às divergências com o governo quanto à eficácia e extensão do uso do medicamento cloroquina para o tratamento da Covid-19”, acrescentou.

Ex-ministro também afirmou que pretendia implementar política nacional de distanciamento social

Teich ficou 28 dias à frente do ministério, entre abril e maio do ano passado. Um dia antes de pedir demissão, Teich relatou que Bolsonaro, em reunião com empresários, prometeu estender o uso da cloroquina. À noite, durante uma transmissão ao vivo pela internet, o presidente afirmou que esperava para o dia seguinte os novos protocolos recomendando o uso do medicamento para o tratamento da covid-19. Foi, então, que Teich disse ter decidido pelo pedido de exoneração.

Pazuello

Teich também afirmou que foi de Bolsonaro a indicação do general Eduardo Pazuello para ocupar o cargo de secretário-executivo do ministério. “Ele foi indicado para mim pelo presidente (…) Embora ele não tivesse experiência em saúde, eu contava que sob a minha orientação ele executasse de forma adequada o que fosse definido na minha estratégia de planejamento”, disse o ex-ministro.

Contudo, Teich disse que conversou Pazuello antes de referendar a sua nomeação. Ele disse, ainda, que o militar “contribuiu” em operações para a aquisição e distribuição de respiradores e equipamentos de proteção individual (EPIs).

Apesar dessa contribuição, Teich afirmou que Pazuello não era o nome mais adequado para substituí-lo, como ocorreu após a sua saída. “Na posição de ministro, seria mais adequado alguém com conhecimento maior sobre gestão em saúde”, declarou.

Versões

Por outro lado, ao contrário do seu antecessor, Teich disse desconhecer que houvesse um núcleo que prestasse “aconselhamento paralelo” ao presidente. O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou nesta terça-feira (4) que os filhos de Bolsonaro e médicos “alheios ao ministério” faziam parte desse conselho informal. Além de opinar sobre medidas de isolamentos, teria partido desse grupo uma sugestão para alterar a bula da cloroquina, incluindo a recomendação para uso contra a covid-19.

No entanto, assim como Mandetta, Teich também afirmou à CPI da Covid que não partiu do ministério da Saúde qualquer ordem para que o laboratório do Exército produzisse cloroquina em larga escala. Nem para que o medicamento fosse distribuído a comunidades indígenas, como política de prevenção e combate à disseminação do novo coronavírus.

Economia e saúde

À CPI, Teich também fez questão de marcar posição em relação à postura adotada pelo governo em tentar separar a economia dos efeitos da pandemia. “Economia e saúde não são coisas distintas”, disse Teich. “A economia foi tratada como dinheiro e empresa, e a saúde como vidas, sofrimento e morte, mas na verdade, tudo é gente. Quando você fala de economia você não fala de empresas, você fala de gente”, ressaltou.

Se tivesse sua autonomia preservada, Teich disse que trabalharia para implementar políticas de isolamento social, apesar das atitudes adotadas por Bolsonaro no sentido oposto. “O presidente tinha as atitudes dele, mas a minha postura seria buscar tudo o que fosse importante para a sociedade. Quando falava em isolamento e distanciamento, a ideia era que a gente tivesse um programa nacional, para que houvesse uma conduta homogênea”.

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